O VALE DAS MAÇÃS

Autora: Acadêmica Maria Estela Meira Villani, titular da Cadeira número 15, da Patrona Clarice Lispector.

Foto : Internet
O VALE DAS MAÇÃS
I
Meus caminhos não acompanharam o curso do rio.
Fiquei entre as montanhas,
a passos lentos, na lassidão do vale.
Sabia,
os caminhos do vale não me levariam às águas do rio
- não hoje.
No vale não há macieiras,
O percurso entre as montanhas faz-se do cotidiano.
O encontro do rio – é tão esparso
quanto o espaço natural entre as águas e o vale.
O caminhar entre as montanhas é tão vagaroso
quanto se nos parece a espera de um sonho.
As sensações vêm da presença constante e intensa,
vem do nome que se diz como se reza,
vem da voz do canto que faz adormecer.

II

Penso em ti.
Fecho os olhos
e trago tua imagem para perto
- muito perto,
como eu gostaria de ter feito hoje,
aos primeiros vestígios da aurora.
Alguma coisa despertou a ternura de sempre
- aquela que me pedes, quando te aproximas.
Quero abraçar-te e dizer o quanto compreendo e perdoo
o teu gesto de fazer os olhos se dobrarem para o silêncio,
para a noite, para a finitude repentina.
E vem-me a lembrança do rio tranquilo,
seguindo seu curso,
nos braços das margens cobertas de flores e relva.
Sento-me à beira, ao pé dos amieiros,
sobre as raízes dos arvoredos ciliares, de onde me chamas,
e, recostada em teu peito amoroso,
ouço a vida palpitando no inesperado.

III

O perfume das macieiras,
a carne clara das maçãs ficaram em mim.
As águas do rio
fluem nos meus olhos fixos, no limite das terras distantes
e próximas do sonho que me ensinou a viver
- difícil aprendizagem.
Gosto de olhar o rio,
com minhas mãos ungidas pelas tuas mãos.
E os sonhos inocentes renascem do tempo,
enquanto nada dizemos, ao murmúrio cálido do instante:
é quando o tempo tem a medida do que se faz eterno.
Então, compreendemos que a resposta de tantas perguntas
é apenas este elo
-eu e tu reencontrados no grande desencontro de existir,
na dolorosa consciência de ser e de estar.

IV

Senti tua presença.
Ela veio no desassossego do vento que a pressentira.
Fechei os olhos para sentir teu abraço manso e forte,
e receber o beijo que ainda não me deste hoje.
Penso em ti,
enquanto tuas palavras se repetem no meu coração,
e aquieto-me para ouvir-te, amoroso e terno,
com a mesma ternura
que faz da noite espessa um manto de lua plena.
Recebo-te em silêncio,
no pensamento inquieto de buscar-te.
E vens sempre ao meu encontro,
No cansaço eternamente nosso de esperar.

V

Deste-me o beijo pleno.
Tuas mãos ainda estão em minhas mãos.
Tens o perfume da macieira carregada de frutos.
Nas minhas mãos ficou teu cheiro de maçã.
Deixarei teu perfume nos lençóis
e sonharei contigo na viagem última,
além do suspiro derradeiro.
E sempre estarás no amanhã.
Estaremos no sempre que acreditamos haver,
paraíso construído no desejo da alma-irmã.
Então, eu te abençoo,
peregrino dos grandes vales e do curso dos grandes rios,
e a tua bagagem perfumada, carregada em luz e ouro,
e teu olhar úmido e longínquo debruçado na imobilidade súbita.

Rua Fernão Dias, 34 - sala 11 -
Tel.: (13) 97419-2434 ID: 35*60*38491 - Gonzaga - Santos

desenvolvido por ideiafix.com.br